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O THC não é o vilão, é versátil e potencializa o tratamento, diz neurocientista

Por ABRACOM

Foto: Marcos Alves / Jornal O Globo

Em entrevista exclusiva ao site da Abrace, o PhD em neurociência pela Unifesp, Dr. Renato Filev, explica por que o THC não é o vilão, ao contrário, esse canabinoide, em pequenas doses, pode potencializar o efeito do canabidiol, afirma.

Renato Filev iniciou seus estudos científicos sobre o uso terapêutico da Cannabis sativa em 2008 e atualmente faz seu pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na entrevista, o neurocientista fala sobre a importância do Sistema Endocanabinoide (SEC), o potencial terapêutico da planta e a importância da Abrace e outras associações como forma de democratizar o acesso ao tratamento.

Qual a descoberta científica mais importante sobre o uso terapêutico da planta Cannabis sativa?

A descoberta científica mais importante sobre o uso terapêutico da planta evidentemente é a descoberta do Sistema Endocanabinoide (SEC). Sem a descoberta dele, não teríamos a compreensão e a dimensão desse impacto sobre o uso dos fitocanabinoides em nosso organismo.

O SEC é composto por neurotransmissores que se conectam aos canabinoides. Ele é responsável por regular e equilibrar os outros sistemas dos seres vertebrados, desde processos fisiológicos a cognitivos, todas atividades do sistema imunológico, apetite, sensação de dor, humor e memória.

Essa grande interação dos fitocanabinoides com o nosso organismo se deve ao SEC, que está amplamente distribuído em nossas células, tecidos, órgãos e sistemas, e isso então proporciona, além dos efeitos terapêuticos da Cannabis, uma série de funções fisiológicas, metabólicas, psicológicas e patológicas que acometem nosso organismo.

Por que o THC não é o vilão? De que forma a substância age no organismo e como melhora a qualidade de vida de pacientes?

O THC ou delta-9-tetrahidrocanabinol é um dos fitocanabinoides, uma das moléculas que compõem a Cannabis, que atua em nosso organismo sobretudo ativando os receptores canabinoides CB1 e CB2 e proporcionando uma série de alterações na nossa fisiologia e nos sintomas de algumas patologias.

O THC apresenta esse efeito paradoxal, e é importante explicar claramente o porquê de ser considerado o “vilão”. Esse canabinoide é o principal causador dos eventos adversos associados ao consumo da Cannabis em altas doses, mas em baixas doses ele proporciona inúmeros efeitos terapêuticos, como redução de espasmos, aumento de relaxamento, mudança no humor, mudança da percepção sensorial, também proporciona efeito anticonvulsivante e ansiolítico em baixas doses.

Então o THC seria uma molécula versátil que, ao mesmo tempo que pode proporcionar os efeitos terapêuticos desejados pode promover o efeito oposto, caso haja um aumento dessa dose, por isso o cuidado no manejo dessa terapia.

Como mensurar a dose, o que é uma dose alta ou baixa?

É importante saber que o SEC é personalizado, singular, cada indivíduo tem uma resposta, isso gera uma certa variabilidade na resposta aos efeitos. Evidentemente que uma dose alta de THC vai apresentar efeito de natureza farmacológica conhecida e previsto, acima de 20 mg pode ser considerado uma dose alta para determinados indivíduos.

Então existe uma variabilidade entre as pessoas, algumas pessoas precisam de uma determinada dose justamente por ter o sistema endocanabinoide num formato de funcionamento hipo ou hiper funcional, ou seja, para apresentar algum efeito considerado terapêutico demande de uma dose maior de algum dos canabinoides.

Ainda não conseguimos precisar a dose ideal para cada indivíduo com determinada enfermidade, será necessário fazer um planejamento terapêutico que proporcione uma oferta de produtos com diferentes perfis de canabinoides e deve ser iniciado com baixa dosagem, como 0,1 mg/kg, para saber qual a resposta à remissão dos sintomas.

No Brasil, existem dados de pacientes tratados com THC e as principais patologias?

No Brasil existem muitos pacientes tratados com THC. Inúmeras patologias podem ser tratadas com esse canabinoide, desde epilepsia, Parkinson, Alzheimer, autismo, glaucoma, insônia. Pode ser usado nas quimioterapias, auxiliando nas náuseas e vômitos. Tem uma série de enfermidades em que o THC pode ajudar.

Outra questão importante é que o THC e o CBD têm alguns dos efeitos que são considerados antagônicos, inclusive a farmacodinâmica (a ação dessas moléculas no Sistema Endocanabinoide) parece ser um pouco diferente. Enquanto o THC é um ativador dos receptores canabinoides, o CBD parece um agonista inverso, ou seja, ele inverte o sentido da ativação desses receptores e é uma molécula bastante “promíscua”, que parece atuar em outros alvos desse sistema, como na enzima que degrada a anandamida (um neurotransmissor que gera felicidade produzido pelo organismo e tem propriedades similares ao THC).

Algumas pessoas que se tratam com canabinoides parecem apresentar uma dificuldade de encontrar uma dose satisfatória do canabidiol, e para isso elas podem lançar mão de pequenas doses do THC, que é capaz de potencializar os efeitos do canabidiol.

Qual o papel da Abrace e das associações no contexto atual?

As associações como a Abrace são fundamentais para viabilizar o acesso aos derivados da Cannabis de uma forma mais democrática à população que não tem possiblidades de adquirir os medicamentos registrados e regulados pelo Governo.

Atualmente existem dois medicamentos de disponíveis nas farmácias brasileiras que, além do alto custo, tem uma formulação bastante limitada. O frasco de 30 ml custa cerca de R$ 2 mil, o que dá para cerca de um mês de tratamento, na média dos pacientes.

As associações são capazes de oferecer uma variedade maior desses medicamentos a um custo mais baixo, permitindo que mais pessoas tenham acesso ao tratamento.

As associações podem, como sociedade civil, promover uma forma de pensar um novo mecanismo para essa relação com a Cannabis, uma relação que não fosse apenas comercial e que fortalecesse a autonomia e a iniciativa associativa de pessoas.

Muitos benefícios podem aparecer nessa dinâmica de produção de tratamentos e terapias com canabinoides, como vínculos com arranjos produtivos locais e produção agrícola familiar. Tudo isso pode se desdobrar da mentalidade das associações.

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