Médico relata dificuldades na prescrição de cannabis medicinal no Brasil: “a cannabis não tem volta, mas tem resistência”

De acordo com relato do médico Wilson Lessa, que tem como especialidade a psiquiatria, ainda há resistência por parte da comunidade de saúde no país para prescrição, o que vem impedindo maiores avanços na área.

A cannabis medicinal é essencial para vida de muitas pessoas que dependem do medicamento para tratar de doenças dos mais variados tipos. Seja um problema intestinal, seja um descompasso na ansiedade no organismo ou doenças graves, como Alzheimer, câncer e outras situações, a cannabis medicinal é um importante aliado contra esses problemas.

No entanto, a prescrição desse tipo de medicamento ainda é um problema na maioria dos casos. A comunidade médica, em grande parte, ainda tem resistência quando se trata de prescrever cannabis medicinal, seja porque ainda há muito preconceito com o tratamento, seja por fatores externos.

É o que conta o médico psiquiatra Wilson Lessa, que explicou as dificuldades que profissionais de saúde encontram para prescrever a cannabis medicinal para os seus pacientes. Ele disse que há mais de um fator que explica a situação.

Prescrição

O problema, segundo o especialista, começa ainda no processo de formação desses profissionais de saúde, porque durante a academia não há na grade curricular dos cursos conteúdos voltados especificamente para tratar de cannabis medicinal.

“A resistência é multifatorial. São plantas medicinais ancestrais e com potencial de abuso e alta carga de preconceito racial e moral. O sistema fisiológico endocanabinoide, que é o maestro de outros sistemas fisiológicos, ainda é negligenciado na grade curricular da maioria das faculdades de saúde no Brasil”, explicou.

Além disso, conforme a visão do psiquiatra, há o olhar dos especialistas na área da saúde ainda muito voltados para o mercado tradicional farmacêutico, assim como dos próprios pacientes, desconsiderando o trabalho de associações, que produzem os medicamentos, excluindo a requisição de importação e barateando o custeamento para os pacientes.

“Os produtos de algumas associações alcançaram nível de excelência, oferecendo segurança aos médicos para prescreverem diversas possibilidades com diferentes espectros de fitocanabinoides com um preço competitivo frente aos importados”, ressaltou.

Cannabis medicinal

Segundo Wilson Lessa, devido a esses problemas na formação acadêmica e também em relação ao mercado elencadas anteriormente, existe uma interferência também na visão geral que as pessoas têm sobre a cannabis medicinal, uma resistência associada ao preconceito.

“A prescrição é um ato médico, provinda do conhecimento teórico, da prática clínica e do estudo sem preconceito do que estão pesquisando em centros de pesquisa ao redor do mundo. Hoje, para casos compassivos, temos níveis de evidência para o alívio de sintomas de diversas doenças e transtornos com uso de canabinóides”, disse.

Outro detalhe abordado nesta questão foi o de que evidências médicas já comprovam os benefícios da cannabis medicinal, o que faz a teoria de que as questões sociais são o filtro de resistência contra esses medicamentos.

“Não se trata de uma bala de prata, mas de uma planta que foi domesticada pela humanidade há pelo menos 12 mil anos e há pouco mais de 35 anos, começamos a entender esse sistema endocanabinóide em que ela age. O uso medicinal já é considerado seguro e eficaz há 5 mil anos, e agora estamos num momento de personalizar o tratamento ao tônus do sistema endocanabinoide de cada paciente”, contou o médico.

O futuro da prescrição

O especialista também conta que o futuro da prescrição, por conta de todos esses empecilhos, ainda vai trilhar um caminho de resistência. No entanto, ele acredita que o contato com as histórias dos pacientes que melhoraram utilizando o medicamento pode sensibilizar parte da comunidade médica, vencendo esses desafios.

SAC